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Saulo Monte Serrat (FEBRACT)
Uma das metas do
Grupo de Trabalho constituído a partir da reunião de 18 de dezembro de
2004, foi a de conceituar Comunidade Terapêutica, a partir das definições
de autores renomados.
A
flexibilidade que permite a existência de CTs nos meios mais diversos, se
de um lado é uma característica desejável, pode levar a deturpações que
comprometem a essência da proposta.
Essa
preocupação de nosso Grupo de Trabalho é também a de outros autores,
inclusive George De Leon que alerta ”A ampla diversidade de programas
dificulta a avaliação geral da modalidade C.T.,acentuando a necessidade de
se definir elementos essenciais do modelo e do método da Comunidade
Terapêutica”. Esses autores ao mesmo tempo que reconhecem a contribuição
trazida por profissionais que trabalham em CTs lembram que muitos deles,
com base em sua formação acadêmica, procuram introduzir conceitos e
práticas que conflitam com as características essenciais da Comunidade
Terapêutica.
Para o inicio de
nossa tarefa comecemos com algumas definições oficiais. A ANVISA na
Resolução nº 101/2001 define como Comunidades Terapêuticas: “Serviços de
atenção a pessoas com transtornos decorrentes do uso ou abuso de
substancias psicoativas (SPA), em regime de residência ou outros vínculos
de um ou dois turnos, segundo modelo Psicossocial, são unidades que têm
por função a oferta de um ambiente protegido, técnica e eticamente
orientados, que forneça suporte e tratamento aos usuários abusivos e/ou
dependentes de substâncias psicoativas, durante período estabelecido de
acordo com o programa terapêutico adaptado às necessidades de cada caso. É
um lugar cujo principal instrumento terapêutico é a convivência entre os
pares. Oferece uma rede de ajuda no processo de recuperação das pessoas,
resgatando a cidadania,buscando encontrar novas possibilidades de
reabilitação física e psicológica, e de reinserção social”. O “Glossário
de Álcool e Drogas”, elaborado por um grupo de pesquisadores com o apoio
da Organização Mundial de Saúde e agora editado pela SENAD, define
Comunidade Terapêutica como: “Um ambiente estruturado no qual indivíduos
com transtornos por uso de substância psicoativa residem para alcançar a
reabilitação.Tais comunidades são em geral especificamente destinadas a
pessoas dependentes de drogas; elas operam sob normas estritas, são
dirigidas principalmente por pessoas que se recuperaram de uma
dependência, e são em geral isoladas geograficamente. As Comunidades
Terapêuticas são caracterizadas por uma combinação de “teste de realidade”
(através da confrontação do problema relacionado ao uso de droga pelo
individuo) e de apoio dos funcionários e de co-residentes para a
recuperação. Elas têm uma linha muito similar à dos grupos de ajuda mútua
tais como Narcóticos Anônimos”.
Busquemos agora a posição de Profissionais que trabalham com Comunidades
Terapêuticas. Deixando de lado a história remota, comecemos com Sullivan
que, em 1931, pela primeira vez usou o termo “Comunidade Terapêutica” para
designar uma instituição que, funcionando como um organismo social, podia
modificar terapeuticamente um individuo, desde que ele se integrasse a ela
de maneira ativa e articulada.
Mas cabe a
Maxwell Jones, em 1953, o mérito de estabelecer os princípios e as normas
que fizeram com que sua proposta fosse considerada a “3ª Revolução da
Psiquiatria”.
Se formos
procurar os fundamentos da proposta de Maxwell Jones, encontraremos a
idéia da democratização do atendimento que era feito nos hospitais
psiquiátricos. A diminuição da distância entre a direção, a equipe de
tratamento e os internos, criava uma organização social democrática. A
participação ativa dos internos na própria terapia,a comunicação livre
entre todos, as assembléias reunindo todos os participantes da Comunidade,
são aspectos que não deixam dúvida sobre o fundamento da proposta.
Em
1961, Raport analizando as modificações que haviam sido introduzidas em
diferentes Comunidades Terapêuticas encontrou pontos em comum dos quais se
destacam: a. A organização como um todo tem um efeito
terapêutico. b. A ação social é considerada como parte vital
e dinâmica do tratamento. c. Buscam-se oportunidades reais
para que os pacientes possam assumir uma participação ativa no governo da
Comunidade. Essa abertura democrática variava de instituição para
instituição. d. Todos os relacionamentos dentro da
instituição são considerados potencialmente terapêuticos. e
. Deve-se estimular a comunicação inter-grupal.
Elena Goti,
em 1997, depois de lembrar que a Comunidade Terapêutica não se destina a
todo tipo de dependente destaca os seguintes pontos: a .
Deve ser aceita voluntariamente. b. É um modelo residencial
de um meio altamente estruturado. c. Atua através de um
sistema de pressões, artificialmente provocadas. d .
Estimula a explicitação da patologia do residente frente a seus pares, que
servirão de espelho da conseqüência social de seus atos. e.
Estabelece um clima de tensão afetiva. f. Considera o
residente o principal autor de sua cura, lembrando que a equipe oferece
apenas apoio e ajuda.
George De
Leon, cujo livro: “A Comunidade Terapêutica: Teoria, Modelo e Método”
julgamos ser, em termos mundiais, o mais completo trabalho sobre o
assunto, lembra que a Comunidade Terapêutica é uma abordagem de auto-ajuda
fora das correntes psiquiátrica, psicológica e médica.
Entre outras
características cita sua grande flexibilidade, o enfoque na pessoa como um
todo, a ênfase à pessoa e não à droga, o fato de ser um
processo a longo prazo, que deve ser resultar em mudança pessoas e no
estilo de vida, o reconhecimento de que os companheiros são os principais
agentes de mudança, a manutenção das características de uma famiília
ajustada, a não aceitação às drogas, ao contato sexual e à violência
física.
Ter trazido
para o Brasil o livro de De Leon e ter conseguido sua tradução e impressão
entre nós, foi uma contribuição marcante que a FEBRACT deu às nossas
Comunidades Terapêuticas. Seu livro, com forte embasamento cientifico,
serviu para diminuir juízos preconceituosos, muitas vezes produto do
desconhecimento de nossa proposta. No entanto, apesar das inúmeras
concordâncias que encontramos nele, há pontos que devemos debater, em
virtude de diferenças culturais. Já iniciamos esse debate, que tem se
revelado muito enriquecedor.
Regadas
(2001) estagiando em Walden House observou que a coesão interna é
sustentada por um sentimento de solidariedade fraterna que se solidifica a
cada assembléia comunitária. Os princípios básicos devem ser obedecidos
por todos, sem distinção. Não são permitidas drogas, nem contatos sexuais,
nem violências ou ameaças. A Assembléia Comunitária é o lugar privilegiado
para examinar as normas e as eventuais transgressões a elas. Exalta-se o
ser verdadeiro consigo mesmo e com os demais. Existe uma disciplina na
confrontação e a confrontação constante vai diminuindo cada vez mais o
desejo da droga.
À procura
de uma síntese
– Procuramos, a partir das definições acima, chegar a uma conceituação
provisória de Comunidade Terapêutica, do Modelo Psicossocial. É ela: “
Ambiente residencial protegido, técnica e eticamente orientado cujo
principal instrumento terapêutico é a convivência entre os pares. Seu
objetivo é recuperar os internos resgatando sua cidadania, buscando sua
reabilitação física e psicológica, e a reinserção social. Nela deve haver
uma participação ativa dos internos na própria terapia e, dentro de
limites, no governo da Comunidade.
São algumas de suas
características:
1.
A aceitação voluntária do programa.
2.
A intensa e constante comunicação entre todos os
membros.
3.
A atuação dentro de um sistema de pressões
artificialmente provocadas, que estimula a explicitação da patologia do
residente diante de seus pares.
4.
O enfoque na pessoa como um todo, dando-se ênfase a
ela e não à droga.
5.
A coesão interna sustentada por um sentimento de
solidariedade fraterna e pela aceitação de valores morais.
6.
Não às drogas, aos contatos sexuais e à violência.
Pedimos que após lerem essa conceituação provisória procurem dar sua
contribuição sugerindo acréscimos, supressões ou modificações. Apenas um
trabalho conjunto que reflita a experiência de várias Comunidades,poderá
nos conduzir a um conceito que, respeitando a essência da proposta, esteja
de acordo com a nossa realidade.
Bibliografia
1.
ANVISA – “Resolução RDC ANVISA 101-01 publicada no
Diário Oficial da União em 31/05/2001.
2.
De Leon, G. – “A Comunidade Terapêutica : Teoria,
Modelo e Método”. Trad. Sobral, A; Bertalotti,C; Gonçalves, M.S. – Ed.
Loyola, 2003.
3.
Goti, E. – “La Comunidad Terapêutica” – Ed. Nueva
Visión, 1990
4.
Jones, M. – “The Therapeutic Community: A new treatment method in
psychiatry” – Ed. New York, Basic Books, 1953.
5.
OMS – “Glossário de Álcool e Drogas”. Trad. J.M.
Bertolote. Ed. Gab. Seg. Institucional / SENAD, 2004.
6.
Rodrigué, E. – “Biografia de uma Comunidad
Terapêutica”. Ed. Eudeba, 1965
7.
Regada, E.G. – “Comunidad Terapêutica y transtornos
duales”. Ed. Psicolibros, 2001 |